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Cariri

Fé e trabalho podem andar juntos mesmo em dia santo

(Foto: Felipe Azevedo/ Agência Miséria)

É errado trabalhar no feriado santo? Muitos dizem que sim, que se deve guardar este dia em respeito à morte de Cristo e, segundo a tradição, a oração durante o período tem de ser o foco principal dos católicos. A realidade mostra o diferente, trata-se de aproveitar as oportunidades, coisa que um bom comerciante deve saber fazer.

O comércio informal na Rua do Horto é um bom exemplo disso. No local onde pulsa forte a fé e a penitência há também quem aproveita o movimento que aumenta durante a Semana Santa para conseguir reforçar o orçamento, que, geralmente, já quase não existe.

A maioria dos pequenos ambulantes investe no tipo de mercadoria que é quase impossível acumular em estoque: comida! Bolos, salgados, chás, muito café e até maçã do amor estão fresquinhas, disponíveis por quem passa por ali durante o dia e a madrugada. Mas quem são essas pessoas que, mesmo com tantas dificuldades, não desistem de tentar sempre a melhora de vida? Quem são esses que, frente a falta de oportunidades, saem da zona do conforto e, com a ajuda da família, mantêm a esperança de viver com conforto e dignidade?

Dona Maria Helena tem 56 anos, natural de Campina Grande, mora há 19 anos na Rua do Horto e divide a casa com cinco irmãs e cinco sobrinhos. Ela garante que, apesar de pequena, a casa herdada pela mãe tem espaço suficiente para "viver em harmonia". Ela é uma das três irmãs que não casou. Não tem emprego e tampouco é aposentada. Todos os anos põe uma mesinha na porta de casa para vender bolos, chá e café. "É bom, eu me distraio", ela diz.

Dona Maria Helena, há 19 anos põe a mesa na calçada para vender bolo e café na Sexta-Feira Santa. (Foto: Felipe Azevedo/Agência Miséria)

Ao ser questionada sobre o grande movimento bem na porta de casa, ela não reclama, mas acha que "com o tempo, a tradição vem perdendo a força; as pessoas costumavam vir para rezar, pagar penitência, hoje muita gente vem para beber e fazer baderna". No resto do ano, dona Maria Helena trabalha ajudando nos serviços domésticos na casa de uma amigo, que mora do outro lado da rua.

O recifense Luiz Carlos está há 20 anos no Cariri. Ele mora em Crato, mas há 30 anos, ainda em Pernambuco, já vinha para cá e armava sua barraca na Rua do Horto. "Sou o pioneiro em trabalhar na Semana Santa", ele garante. E completa: "Há três décadas não era comum o comércio na Sexta Santa, muita gente não trabalhava porque os costumes sempre pregaram que é pecado, eu discordo", diz animado. Ele vende maçã do amor, batata frita e frutas cobertas de chocolate, garante que as vendas ainda são boas, mas que o lucro obtido no final da semana não se compara com o que arrecadava anos atrás.

Luiz Carlos vende maçã do amor na Ladeira do Horto há 10 anos. Ele se diz pioneiro em trabalhar no feriado. (Foto: Felipe Azevedo/Agência Miséria)

A jovem Cleane desde pequena é romeira de Juazeiro. Ela vinha acompanhando a avó, pelo menos três vezes por ano visitar o Padre Cícero. O sonho de morar por aqui se concretizou em novembro do ano passado, quando ela e o esposo Pedro, saíram de Santos para morar no Horto. Estão desempregados e construindo a casa própria. Até agora, conseguiram levantar as paredes
e seguem animados com o sonho da casa própria. Na barraca deles tinha milho, água, velas e doces.

Cleane e Pedro realizaram o sonho de morar juntos no Horto, eles agora estão construindo a casa própria. (Foto: Felipe Azevedo/Agência Miséria)

Todos esse personagens fazem parte da história profetizada pelo Padre Cícero, uma cidade que se formou e monta seus pilares no desenvolvimento baseado em fé e trabalho. Exemplo é o que não falta.


Por Felipe Azevedo/Agência Miséria
Miséria.com.br

Fagner Soares

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