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Ex-catador de latinhas, professor tem projeto aprovado em Havard



Juazeiro do Norte. Após as aulas na Faculdade de Tecnologia (FATEC), Ciswal Santos se dirigia até o antigo Bar do Zé, na Rua Padre Cícero, onde catava latas de bebidas para trocar por dinheiro e, assim, manter seus estudos. Pode parecer pouco, mas os R$ 7 por semana ajudava a pagar as cópias de textos e apostilas necessárias nas disciplinas do curso de Ciências da Computação. Hoje, como professor, conquistou uma bolsa para estudar Universidade de Havard, nos Estados Unidos, através de um projeto de tecnologia sustentável aprovado no mês passado.  
Nascido em Palmares (PE), Ciswal, de 31 anos, se mudou para Juazeiro do Norte quando seu pai, também professor, foi transferido para Serra Talhada (PE). Com família devota do Padre Cícero, optaram por ficar na terra do sacerdote. Com o tempo e a separação de seus pais, as dificuldades financeiras apareceram. Sua mãe, ganhava R$ 15 por faxina. 
Era pouco. Por isso, o próprio Ciswal resolveu trabalhar em um mercantil entregando as feiras em bicicleta. Com R$ 20 por semana mal dava para comer. No fim do mês, já não tinha o que receber, já que ficava devendo alimento no próprio estabelecimento. “Aí apareceu as latinhas para tirar o sustento do meu material escolar”, lembra o professor.  

Ciswal foi campeão nordestino de xadrez.
O garoto, que entrou na faculdade com apenas 15 anos e meio, teve que buscar no lixo a solução para seu sonho de continuar estudando. Um quilo de latas custava R$ 2. Em uma semana, Ciswal conseguia três quilos e meio. “Era com isso que pagava xerox, apostila, conseguia pegar um livro e imprimir”, confessa.  
Com muita luta, hoje é professor no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) com mais de 11 anos de carreira. No entanto, foi no mês passado que deu seu maior salto em sua trajetória. Das ruas de Juazeiro do Norte, foi selecionado para estudar em uma das mais renomadas universidades do mundo.  

         Sua rotina na adolescência era catar latinhas para comprar o material escolar.



Proposta 
Ontem (31), Ciswal recebeu por e-mail uma proposta que poderia dar um salto na sua qualidade de vida. Uma empresa mineira ofereceu R$ 110 mil pelo seu projeto que oferece internet, captação de água e energia elétrica a um baixo custo para pessoas do Semiárido. Ele recusou. “Não vou mentir, na hora pensei que eu poderia construir minha casa, dar alguma coisa a minha mãe”, confessa.  
Hoje, o equipamento criado pelo professor custa, aproximadamente, R$ 2 mil, mas a expectativa é diminuir para R$ 960 para que as pessoas mais pobres possam ter acesso. Uma das formas é usar placas solares que produzam energia elétrica e ajude na captação de água através de um poço cartesiano. Já a internet, seria disponível por satélite.  
O projeto foi apresentado para Havard e reprovado em 2016, porque, seu custo era muito alto para a renda per capita do Nordeste – acima de R$ 4 mil. No entanto, com ajuda de um pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) conseguiu torná-lo mais acessível com tecnologia asiática.  
Ciswal tem mais de 240 medalhas de judô. Ele é professor e faixa marrom da modalidade.
No dia 14 de setembro, recebeu o e-mail informando que o trabalho foi aprovado e, no mês de novembro, o curso inicia através de videoconferência. O desafio é o horário. As aulas acontecerão de 23h35, às 2h45, por conta do fuso-horário. “Para quem chegava de madrugada porque estava catando latinha, isso vai ser besteira pra mim”, brinca.  
Em abril de 2019, já teve apresentar o projeto nos Estados Unidos. Esta visita, aliás, deve acontecer a cada seis meses nos próximos três anos. “Eu vou ser bem sincero, ainda não sei o que fazer. Se vou pegar emprestado, vender moto”, desabafa o professor.  
Pai de três filhos: duas meninas, de sete e cinco anos, e um menino de apenas dois meses, Ciswal optou por não ter as aulas presenciais para não ficar longe de sua família. Mônica Alves, sua esposa, conta que no cotidiano sempre foi difícil lidar com as diversas tarefas que o marido se dedica. “Quando gosta se dedica muito, se entrega bastante”, garante.   

Ciswal optou por ficar no Brasil e ter aulas à distância para ficar perto da família.
O gosto por mecânica começou na vida de Ciswal ainda pequeno, dos 8 aos 10 anos de idade, quando ganhava brinquedos eletrônicos de seu pai. “Mas só duravam um dia”, recorda o professor. Seu hobby, quando criança, era desmontar os objetos para ver como funcionava e depois os remontava. “Aí comecei a aprender noções de mecânica e eletrônica”, completa.  
“Era um aluno inquieto, curioso. Sempre conseguia as notas necessárias, boas notas. Mas sempre estava questionando. Sempre queria além da sala-de-aula”, descreve Andreia Batista, sua professora no Ensino Fundamental, no Colégio Moreira de Sousa. Ela conta que, depois da aprovação de Ciswal em Havard, começou a entender o seu comportamento. “A gente fica orgulhosa”, completa.  

Fonte: DN

Fm Progresso 97,9 A primeira do Brasil

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