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'Consciência Negra': atrizes de 'Malhação' exaltam a beleza negra em ensaio especial



Elas não têm nem 30 anos, mas impressionam pela maturidade. Falar com Yara CharryJeniffer Dias e Luellem de Castro é se deparar com universos completamente diferentes, porém extremamente ricos e inspiradores. Protagonistas negras da atual temporada de Malhação, as três jovens atrizes foram convidadas pelo Gshow para um ensaio em homenagem ao Dia da Consciência Negra, comemorado nesta terça, 20/11. O conceito? Exaltar a beleza e a força das mulheres negras, pensando tanto no passado, mas principalmente no futuro, numa pegada mais solar e futurista.



Na TV, no teatro ou no cinema, essas atrizes, com histórias de vidas que muitas vezes ultrapassam suas idades, mostram agora por que vieram para ficar. Abriram o coração em uma conversa sincera, falaram como a arte as transformaram e mostram como viraram cidadãs mais conscientes e ativas na sociedade.




A menina de Coronel Leôncio (favela situada em Niterói, no Rio de Janeiro) cresceu e floresceu. Vinda de uma família humilde formada principalmente por mulheres, a Dandarado folhetim juvenil conseguiu ultrapassar suas próprias dificuldades para ir além: transformar a realidade à sua volta.

“Tudo o que eu tenho é feminino, vem da força da mulher. Eu cresci meio que querendo fazer a revolução; mostrar para as pessoas periféricas que tem algo além dali”



Criadora do Projeto 111, que acaba de completar um ano, ela organiza saraus artísticos na cidade com o objetivo de promover reflexões e intercâmbios culturais, e pessoas de todos os tipos e lugares são muito bem-vindas. O importante é sempre a entrega e a interação, além de ser uma ferramenta social para artistas inquietos como ela, que sempre quiseram ter algo com uma identidade próxima a sua.

“É um evento muito democrático, sabe? A gente não cobra de ninguém para ir. Era algo que eu sentia falta. Às vezes eu queria ir para alguns lugares, mas não tinha grana. O Projeto surgiu da vontade de revolucionar essa estrutura social. Eu já fui a muitos saraus, mas nenhum tinha a minha cara. Eu aprendia muita coisa, mas nada sobre mim”, conta a atriz de 27 anos.


“Chamo a galera de periferia para cantar, tocar, expor seus trabalhos. Isso não é algo que acontece e, quando acontece, eles são os últimos a serem chamados. Dessa forma, eles têm oportunidade de mostrar a arte para outras pessoas e enxergar o mundo de outra forma”, diz.



Essa vontade de ajudar e transformar o próximo veio com força depois que a própria atriz passou por seu processo de autoconhecimento. Após um episódio marcante na adolescência, em que sofreu racismo na escola, ela mergulhou nos livros e fez pesquisas para saber mais sobre suas origens.

"Queria ter sido um pouco a Dandara naquele momento e ter um discurso na ponta da língua. Eu fiquei paralisada e comecei a chorar. Mas parece que virou uma chave dentro de mim. Comecei a estudar sobre racismo, ler livros de mulheres pretas. E só depois de ler sobre pessoas com uma realidade parecida com a minha, eu entendi o quanto a minha cultura era bonita"

A atriz conta como a mudança foi importante para a aceitação de sua aparência. “Até então eu alisava o meu cabelo. Achava que bonito era ter cabelo liso. Eu não me via na TV, eu não me via no cinema e muito menos nas revistas. Eu nem sabia o que era teatro, aquilo era uma realidade muito distante da minha."
Com sua personagem, a atriz fica feliz de inspirar outras meninas adolescentes que se sentem agora mais representadas, e fala de um sonho para o futuro.
“Outro dia, a minha irmã, que tem 12 anos, chegou em casa e disse que questionou o professor dela. Ela pediu que ele falasse mais sobre a cultura preta, assim como a Dandara faz em 'Malhação'. Vi um avanço aí. Contar a nossa história importa. A gente quer ser visto e também se sentir importante.”

YARA CHARRY



Yara Charry amadureceu bastante nesses últimos tempos. E não só profissionalmente. Filha de uma brasileira com um francês, a intérprete de Jade nasceu e cresceu em Paris. Sempre esteve ligada à nossa cultura, mas um assunto chamou bastante sua atenção quando veio morar aqui, há dois anos e meio.

“Na França eu nunca tinha parado para pensar sobre representatividade. Não conversava sobre o assunto. É claro que existe o preconceito, mas foi no Brasil que conheci pessoas que falam abertamente sobre isso.”



Se no início Yara sentia um certo constrangimento por não ter passado pelas mesmas vivências que seus amigos, hoje ela entende que o mais importante é o aprendizado que tem com os outros.

“Convivo com pessoas que já passaram por situações de preconceito; leio os noticiários, e por isso mesmo, penso muito no que posso falar. Aprendi que cada um tem a sua história, mas, como vim de um país e de uma cultura diferente, reparo que as meninas por exemplo (Luellem e Jeniffer) têm uma dor interna muito maior do que eu. Eu nunca senti isso”, diz.

Com essas reflexões, diferenças culturais e até históricas passaram a ocupar a mente da atriz, que foi atrás de livros e filmes que pudessem explicar melhor o nosso contexto cultural. “Conversei bastante com amigos, isso me fez ver um outro ângulo”, diz.
A mudança para o Brasil também gerou mudanças físicas em Yara. “Eu sempre alisei o cabelo e, quando cheguei aqui, comecei a me perguntar por que não deixava ele mais natural. Eu amo a minha cor de pele, admiro minhas amigas empoderadas e vejo cada vez mais que temos que lutar por quem nós somos!”


LUELLEM DE CASTRO


Falar sobre a força da mulher negra é um tema muito próximo ao coração da atriz, que como ela mesma conta, aprendeu desde cedo a lidar com questões muito desafiadoras – e cruéis - como o preconceito.
“O racismo está presente na minha vida há muito tempo. Sendo uma pessoa preta, a gente cresce dentro desse ambiente, inclusive do que vão ensinando para gente. Falam que negro fala alto, então a gente começa a falar mais baixo. Que negro é espaçoso, então a gente vai tentando se encolher. Vão ensinando a gente a não se gostar e a criar outras características”, desabafa a atriz, que desde cedo aprendeu a lidar com alguns desses desafios graças a sua autoestima e ao carinho da família.



“Acho que eu já nasci com essa coisinha de me achar muito legal e de estar de bem comigo. Mas a minha família me passou muito disso, eu sempre me senti importante dentro dela."
“Se você tem carinho dentro de casa, você tem para onde fugir se te machucam do lado de fora. Quem não cresce dessa forma, tem dificuldade de reconhecer e exigir carinho”
Aos 23 anos, a Talíssia de Vidas Brasileiras trabalha desde cedo no audiovisual. Já fez um pouco de tudo: cinema, TV, teatro e, foi nesses lugares, que internalizou alguns de seus pensamentos. “São lugares predominantemente brancos. Então, você entende desde cedo que existem diferenças, tratamentos e também realidades diferentes.”


Talvez por isso mesmo sua entrada para Malhação foi tão marcante. Logo na primeira vez que participou de um workshop do folhetim, deu de cara com a preparadora Cris Moura, também negra. E, quando foi gravar suas primeiras cenas, conheceu Mayara Aguiar, uma das assistentes de direção, com quem construiu uma conexão além do profissional.
“Eu sabia que podia conversar certas coisas com a Cris que ela iria me entender, ainda mais como uma mulher negra. E, quando conheci a Mayara, aquilo foi o auge para mim! Durante todo esse tempo, eu nunca tinha visto uma assistente de direção preta. Ela me deu uma outra luz", diz, empolgada.
Com um discurso que demonstra muita força, Luellem acredita que só começou a chamar sua arte de "sua" quando passou a escrever. "Foi quando eu passei a estudar e fazer uma pesquisa minha, aos 15, 16 anos. Todos os cursos de teatro que eu já tinha feito, a maioria das pessoas era branca. Então, a minha arte era muito branca. Tudo que eu aprendi era da Europa, e não de lugares que eram minhas raízes."
Com o Teatro de Afeto, grupo de teatro do qual faz parte, ela acordou para uma nova realidade. Escreveu um monólogo em que falava sobre cura pessoal e teve um clique sobre sua identidade. "Percebi que a melhor coisa que eu tinha sobre mim não era chorar, ou interpretar de uma determinada forma. Era, na verdade, a minha presença e o que eu tinha para falar para as pessoas."

"Vivi muito tempo focada em falar para pessoas diferentes de mim, pessoas brancas ou privilegiadas. Mas eu entendi que a cura é o contrário, a gente precisa falar pra gente primeiro. Somos 54% da população, somos muita gente!"
Essa força que ela encontrou se deu através de sua ancestralidade, que a ensinou principalmente a ver a vida como um todo. "Eu quero crescer junto dos meus. Eu não tenho a mínima pretensão de ser "A" estrela, "A" atriz negra porque isso não existe. Quando a gente começa a estudar nossa ancestralidade negra, a gente percebe que é grupo desde sempre. Só quando todo mundo cresce que você cresce."
E foi assim que ela entendeu sua divindade e também a possibilidade de fazer tudo que quisesse.
"A gente não fica mais satisfeito com pouco, a gente merece tudo! É mais dificil para gente mesmo porque racismo e preconceito não são coisas que as pessoas estão à vontade em resolver. Mas temos que focar e lutar pelo que a gente quer."














*EQUIPE: 
Elenco: Yara Charry, Luellem de Castro e Jeniffer Dias 
Entrevista: Raíssa Cavaignac
Fotógrafo: Fabiano Battaglin 
Produção: Viviane Ribeiro e Adam Scheffel
Vídeo: Renan Blanco e Thiago Fontolan
Edição: Marina Pirozi e Ivan Oliveira 
Styling: Tereza Nabuco
Assistente de styling: Marlene Rodrigues
Caracterização: Rachel Furman
Cabelo: Erica Gama
Locação: Olho da Rua/ Botafogo - Rio de Janeiro 
Coordenação do ensaio: Adam Scheffel
Agradecimentos: Monique Salgueiro
Mídias Sociais: Thais Carreiro

Fonte : G1 

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