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O fotógrafo de Irmã Dulce: conheça o baiano que registrou grandes momentos da trajetória da santa



O fotógrafo Roque Teixeira Cerqueira conviveu com Irmã Dulce — Foto: Valma Silva / G1 BA
O fotógrafo Roque Teixeira Cerqueira tem 67 anos de idade e muitas histórias para contar, guardadas na memória e eternizadas em imagens. Ele conviveu de perto com Irmã Dulce, a primeira santa brasileira, e fez incontáveis registros de momentos vividos pela baiana, com quem teve uma bela amizade.
Roque trabalha com fotografia desde 1975, mas conhece a religiosa antes mesmo de se tornar profissional. Ele é natural da cidade de Feira de Santana, a cerca de 100 quilômetros de Salvador, e mudou-se para a capital ainda criança, junto com a família. Sempre morou no bairro do Uruguai, ao lado da comunidade dos Alagados, onde a freira praticamente iniciou seus trabalhos sociais nos anos 40.
"Eu cresci ouvindo as histórias dela. Aqui na Cidade Baixa, sempre tivemos profundo respeito por Irmã Dulce. Para a gente, ela sempre foi uma santa", comenta Roque, acrescentando que a religiosa fazia, "o trabalho que ninguém queria fazer".
"Alagados era muito, muito pobre mesmo. Ali só viviam os abandonados, os marginalizados. Enquanto os outros ignoravam esse povo, os doentes, os moradores de rua, ela dava carinho, comida e remédio. Todo mundo aqui sabia que ela era uma pessoa diferenciada".
Além dessa referência, vários familiares de Roque já foram atendidos no Hospital Santo Antonio, fundado por Irmã Dulce. E foi na internação de uma cunhada, que estava com tripanossomíase (popularmente conhecida como doença de Chagas), que os dois conversaram pela primeira vez.
"Perguntei como minha cunhada estava e ela disse assim: 'Meu filho, é uma mulher de Feira de Santana? Não tem mais jeito, pode preparar o funeral'. Eu pensei: 'Irmã Dulce sabe de nada, ela não tem como saber de tanta coisa, de tanta gente'. Pouco depois, minha cunhada faleceu", conta.
Irmã Dulce com pacientes no Hospital Santo Antônio — Foto: Acervo OSIDIrmã Dulce com pacientes no Hospital Santo Antônio — Foto: Acervo OSID
Irmã Dulce com pacientes no Hospital Santo Antônio — Foto: Acervo OSID
Após esse episódio, Roque precisou acompanhar outros familiares no hospital e começou a observar o comportamento da freira. Ele detalha que ficava impressionado com a atenção que ela dava aos pacientes, falava pessoalmente com os acompanhantes e perguntava aos médicos sobre o estado de saúde de cada um.
"Irmã Dulce não parava quieta no hospital. Estava sempre andando para lá e para cá, conversando com alguém, varrendo o chão, fazendo curativos. Fazia de tudo. Quem ia até ela, não voltava sem atendimento. E era muita gente, viu? Não sei como ela dava conta".
No final dos anos 70, Roque decidiu trabalhar com fotografia e alugou uma sala no Círculo Operário da Bahia, fundado por Irmã Dulce. Desde então, começou a registrar, nas horas vagas, as incursões da freira pela Cidade Baixa. "Quando ela soube, me falou assim: 'Estou sabendo que você tem um bocado de foto minha'. A partir daí, quando tinha algo especial, ela mesma me chamava, mas longe de qualquer vaidade, sabe? Ela era a simplicidade em pessoa".
Roque lembra que as visitas de estrelas e autoridades aconteciam geralmente nas sextas-feiras. Ele presenciou encontros da freira com os presidentes Fernando Collor de Mello, José Sarney, a cantora Simone, o ator Tião Macalé, dentre outros famosos. O trabalho se tornou tão frequente, que dona Dulcinha, irmã da santa que a ajudava nas Obras Sociais, "nomeou" Roque como o "fotógrafo oficial de Irmã Dulce". A partir daí, ele começou a acompanhá-la sempre.
Xuxa e Irmã Dulce — Foto: Divulgação / OSIDXuxa e Irmã Dulce — Foto: Divulgação / OSID
Xuxa e Irmã Dulce — Foto: Divulgação / OSID
Para Roque, um momento marcante foi o encontro de Irmã Dulce com a apresentadora Xuxa, em maio de 1989. Na época, a estrela lançou uma grande campanha para ajudar a Osid. "Tinha uma multidão que eu nunca vi no Largo de Roma. Era 'gente como o quê', muito segurança, um aperto danado. Mesmo credenciado, tive dificuldade de me aproximar delas. Então olhei para baixo e só vi as pernas de um segurança enorme. Me abaixei e consegui fazer a foto por debaixo da perna dele.Todo mundo riu da situação".
Com o passar do tempo, Roque passou de fotógrafo a amigo de Irmã Dulce. "Ela conversava comigo sobre as obras, sobre os pobres, me ouvia também. Eu jamais a vi negar algo, não dizia 'não' para ninguém. Sempre tinha uma solução para tudo".
Ele recorda que, quando Irmã Dulce já estava acamada, pediu que ele fosse até Simões Filho, na região metropolitana de Salvador, onde existe o Centro Educacional Santo Antônio (CESA), um dos 21 núcleos de atendimento da Osid.
"Ela queria ver como estavam as instalações. Revelei as fotos no mesmo dia e levei para ela ver. Quando ela bateu o olho na primeira, ficou chateada, pois viu que não tinham limpado a sala. Chamou Dulcinha e perguntou porque o chão estava sujo. Ela era muito atenta e cuidadosa".
Roque Teixeira ainda participa dos eventos ligados às Obras Sociais Irmã Dulce — Foto: Valma Silva / G1 BARoque Teixeira ainda participa dos eventos ligados às Obras Sociais Irmã Dulce — Foto: Valma Silva / G1 BA
Roque Teixeira ainda participa dos eventos ligados às Obras Sociais Irmã Dulce — Foto: Valma Silva / G1 BA
Mesmo após a morte de Irmã Dulce, Roque continua fotografando os eventos da Osid e vai participar do evento que vai ser realizado na Arena Fonte Nova, no dia 20 de outubro. Ele não quis ir para solene celebração no Vaticano, apesar de ter sido convidado, mas a filha dele esteve presente. "Já estou velho para essas coisas. Minha menina me representou".
Por incrível que pareça, Roque não tem nenhuma foto própria ao lado de Irmã Dulce. Além disso, doou quase todas as fotos que tinha para uma exposição que celebrou os 100 anos de nascimento da freira. "Não fiquei com quase nada, tenho uma ou outra coisa. Mas tenho uma foto dela enorme na minha casa, para proteger a minha família. Era minha amiga e para sempre vai ser a minha santinha".

Fonte: G1

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