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Cariri

Moradores do Crato são preparados para agir durante tempestades



Lonas na Encosta do Seminário, no Crato, protegem o local da chuvaFotos: Antonio Rodrigues
Ano passado, uma chuva de 120 milímetros, no dia 19 de março, e outra de 130 milímetros, no dia 4 de abril, fizeram o canal do Rio Granjeiro, em Crato, que corta o Centro da cidade, transbordar duas vezes. O episódio é recorrente, mas no dia 28 de janeiro de 2011, uma precipitação ainda maior, de 162 milímetros, causou problemas mais graves: famílias ficaram desabrigadas, carros foram arrastados, e o comércio teve prejuízo milionário. O Município, neste período de "inverno", volta a ficar em alerta, já que o problema não foi solucionado.
"A lama vai lá dentro. A pessoa fica três dias sem vender, porque aqui não anda ninguém. Não consegue ver nem o meio-fio", conta o comerciante Antônio Martins, que há 30 anos revende bebidas na margem do canal. Sua loja e as vizinhas, por causa do medo da água transbordar, possuem calçadas altas, algumas ultrapassam um metro. "Mesmo assim, ainda entra (água). Todo mundo aqui já teve prejuízo", completa.
A aposentada Maria Eliziê de Melo reforça a angústia com a chegada das chuvas. "Ninguém dorme quando transborda. A gente fica lá até baixar (a água) e volta para casa", enfatiza. Nas precipitações mais fortes, ela conta que descem pedras e árvores inteiras, canal abaixo. "E não tem nenhuma proteção, também. Um ônibus quase caiu. Um bêbado, também. Este é o maior perigo do Crato!", alerta.
Prevenção
Na última semana, de forma inédita, foi realizada uma simulação do Plano de Contingência da cidade - o primeiro da região do Cariri e do interior do Estado. A medida foi para testar e avaliar a capacidade de reação da população e dos órgãos públicos em casos de emergência, como inundações, deslizamentos de terra e desabamentos de casas. A atividade contou com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e a Guarda Civil Municipal.


Segundo a coordenadora da Defesa Civil de Crato, Josemeire Melo, a avaliação foi positiva, já que o tempo de resposta foi rápido, após o sinal de alerta. Em 45 minutos, as ações de evacuação foram concluídas. "A retirada das famílias foi bem mais rápida", conta. Porém, ela alerta que, numa situação de desastre, a população deve ser a primeira a ajudar. "Foram designadas três pessoas. Todas foram capacitadas para receber o alerta, começar a acionar as pessoas e conduzirem ao ponto de encontro com um apito".
Reparos
Após a última quadra chuvosa, a Secretaria de Infraestrutura de Crato iniciou a reconstrução do canal, já que parte da parede entrou em colapso pela erosão. Ao todo, foi gasto R$ 1,49 milhão, que contemplou também a reestruturação da Avenida José Alves de Figueiredo. "Foi feito o desassoreamento em setembro e retirada do material do desabamento. Em dezembro, a Secretaria de Meio Ambiente fez uma limpeza de toda a vegetação ao longo do canal para não haver obstrução", explica o secretário Carlos Andson Paiva.
Por prevenção, a Secretaria também assinou um contrato de seis meses, por R$ 1,6 milhão, para a restauração de vias e também do canal, caso haja algum dano que possa ser restaurado. O serviço pode ser prorrogado por mais seis meses. Até agora não foi necessária nenhuma intervenção, a estrutura tem suportado as primeiras chuvas do ano. "Quando identificarmos problemas, acionaremos esta empresa", reforça.
Mais problemas
As medidas adotadas até agora estão longe de resolver o histórico e perigoso problema do canal do Rio Granjeiro. A Universidade Federal do Cariri (UFCA), através de algumas pesquisas, tem observado a diminuição florestal na área superior da Bacia do Rio Granjeiro. Foi feito um estudo de uso e ocupação do solo. Segundo o professor Paulo Roberto Lacerda, doutor em Recursos Hídricos, isso tem contribuído para impermeabilização e, consequentemente, aumentado o fluxo de água que corre para o canal.
"A gente tem constatado que, atualmente, a capacidade não é suficiente, e o sistema hidráulico está funcionando de forma incorreta. Na primeira parte, a água escoa de forma muito rápida, o que chamamos de escoamento supercrítico, em alta velocidade. Na segunda metade, existe uma mudança de regime hidráulico, que provoca dissipação da energia, provocando a destruição do canal e a elevação da água. Nisso, ocorre a inundação", detalha o professor Paulo Roberto.
Outro agravante, acredita o professor, é a drenagem lateral, que leva a água de outros bairros direto para o canal, contribuindo também para a destruição daquela estrutura. "Ele está mal dimensionado em forma hidráulica e hidrológica", reforça.
Alto custo
No fim do ano passado, pesquisadores da UFCA participaram de um encontro promovido pela gestão municipal para discutir soluções para o grave problema das inundações. O professor Paulo Roberto, junto com outros colegas, trouxe alternativas para serem discutidas, como a construção de estruturas de amortecimento para diminuir a velocidade da água ou o transporte de parte deste recurso hídrico para o Rio Batateira, que também corta o Município.
Porém, apenas uma delas, ou as duas, não são suficientes para solucionar o problema. "É parte de uma solução. A combinação delas possibilita amenizar. Tem que incluir medidas não estruturais, como conter um pouco a impermeabilização", explica Paulo Roberto. "Na forma que está hoje, só o aumento do canal não é suficiente. Contribuiria, mas na forma que está hoje, não é suficiente. Ainda seria um acréscimo de oneração, pois precisaria desocupar a área. Não é tão viável", completa o professor.
O secretário de Infraestrutura do Crato, Carlos Andson Paiva, reforça que este projeto é muito caro para o Município arcar sozinho e que é preciso apoio dos governos estadual e federal. "A gente se reuniu com algumas lideranças, mas, até agora, só temos conversa informal. Não tem nada de recurso captado. Houve uma conversa preliminar", admite o secretário. Ainda assim, Carlos Andson reforça que as bacias de amortecimento são uma das possibilidades viáveis para conter a força da água. "É preciso comparar os projetos para que não cause transtorno à população. Um estudo que veja a viabilidade financeira, a vazão, cota de inundação", conclui.

Fonte: DN

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